Partículas finas atingem população idosa em São Paulo

10:15

O senso comum não tem se aprofundado no tema da poluição atmosférica nas grandes cidades, procurando entender o que exatamente é tão prejudicial à saúde nestes compostos e como isso acontece.
Ocorre que o problema está fortemente presente também dentro das residências, com índices altos de partículas finas, as mais danosas à saúde, e na maioria das vezes acima dos recomendados pela Organização Mundial da Saúde e pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), como identificou a tese de doutorado da pesquisadora Bruna Segalin, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG-USP).
Estima-se que a população idosa passe até 80% do dia dentro de seus lares, o que faz com que sejam os mais afetados por essas partículas que se acumulam nas residências. A pesquisadora explica que seu tamanho é o que define seu grau de periculosidade: “quanto menor a partícula, mais prejudicial ela é à saúde”.
O trabalho está inserido em um amplo projeto, que busca analisar os efeitos de diversos fatores externos no equilíbrio e na cognição da população idosa, grupo alvo da pesquisa. Coube a Bruna analisar a qualidade do ar neste contexto, realizando medições de 24 horas nessas casas.
O que são essas partículas?
A justificativa para a consideração do tamanho das partículas no nível de perigo que elas representam à saúde humana é a de que as menores se depositam na área traqueobronquial e alveolar, podendo também atravessar os alvéolos e chegar à corrente sanguínea. Neste caso, a possibilidade de chegar a outros órgãos, como coração e cérebro, é bastante alarmante. “Daí o grande número de doenças cardíacas relacionadas à poluição”, afirma a pesquisadora.
Durante a análise química dos materiais particulados, foi identificado que, em média, 78% das partículas nas residências são finas, e destas, quase 50% são ultra finas. Para efeito de comparação, a Cetesb indica que 60% das partículas presentes na atmosfera são finas. Isso mostra que, em um panorama geral, as partículas finas estão mais presentes dentro das residências do que fora delas.
Além disso, foi detectada forte ocorrência do chamado Black Carbon, que, em termos simples, se traduz na parte preta da poeira que se acumula nas casas, sendo inclusive mais difícil de ser removida quando nas janelas, por exemplo. São partículas de tamanho também bastante reduzido, provenientes de processos de combustão. “Em São Paulo, a principal fonte de poluição é veicular. [O Black Carbon] poderia vir de cigarro ou comida queimada, mas segundo o que apuramos com os idosos, não é o caso”, avalia Bruna.
Dentre as partículas menores encontradas, em média 26% foi Black Carbon. E nas casas próximas a ruas e avenidas com intenso fluxo de veículos, este número foi ainda maior. A influência da proximidade a vias de tráfego intenso se mostrou determinante na quantidade e na composição das partículas, mas não foi o único fator considerado. Também foi observada a ação do vento, que tende a trazer partículas mais grossas para as residências, e da chuva, que reduz a poluição no meio externo e, consequentemente, no interior das casas.
Qualidade de vida
As medições para as pesquisas foram realizadas nas casas de 51 idosos voluntários. Como consequência do trabalho de parceria com a Faculdade de Medicina da USP, os participantes foram encontrados a partir da lista de pacientes atendidos no Hospital das Clínicas. Foram aplicados alguns critérios de seleção para garantir que outros fatores influenciassem os resultados da pesquisa. “Deveriam ser voluntários, acima de 60 anos, ter mínimo de quatro anos de escolaridade, não ter diagnóstico de depressão ou locomoção comprometida, devido aos testes de cognição e equilíbrio”, conta a pesquisadora.
A maior parte dos idosos escolhidos eram residentes da Zona Oeste. A pesquisadora explica que não foi um critério específico, ou algo proposital, e sim uma consequência dos processos de escolha. “Conseguimos mais voluntários nas áreas onde os idosos vivem mais. Então, a serem submetidos aos testes, tinham condições melhores”.
Muitas das reprovações nos testes ocorreram devido a diagnósticos de depressão. As reclamações principais eram falta de qualidade de vida, muitos problemas de saúde e necessidade de retornar ao mercado de trabalho por motivos financeiros.
Disparidade de valores
Em 43% das casas, o número de partículas estava acima do que o recomendado pela OMS, mas seguindo os padrões da Cetesb, apenas uma casa apresentava índices considerados ruins. O disparate dos padrões das duas organizações foram uma questão para o trabalho da pesquisadora. Os índices significativamente mais altos da Cetesb criam um cenário inconclusivo, de certa forma, porque permitem que alguns ambientes se enquadrem em situações boas de qualidade do ar, apesar de estarem longe dos padrões recomendados pela OMS.
Por mais influente que seja mundialmente, a OMS não tem poder para implementar seus índices como força de lei. A companhia paulista, no entanto, criou em 2013 um plano de metas de redução de seus padrões para se equiparar aos valores mundiais. O problema, segundo a pesquisadora, é que tais metas não tem datas de conclusão. “Desde 2013 ainda estamos na primeira meta. Existem mais três até os valores da OMS, e não há previsões.”
Apesar desta situação, a pesquisadora lembra que também não existem incentivos governamentais para que haja menos poluição. “Não adianta só a Cetesb diminuir os limiares e a cidade não dar nenhum suporte para que os veículos poluam menos.” A troca de carros mais antigos por outros novos é um exemplo dado por Bruna.
Cidade cada vez mais cinza
“São Paulo foi escolhida porque a maior parte de sua poluição vem de veículos”, afirma a pesquisadora. O trabalho vem com o objetivo de pressionar as autoridades a respeito da qualidade do ar na cidade, dando ênfase à qualidade de vida dos idosos dentro de suas residências. “Como os idosos ficam muito tempo em casa, foram o alvo principal. Além disso, são a população que mais cresce no mundo”, observa Bruna, que completa, direcionada aos governos: “você não pode fazer nenhum programa de melhoramento desse cenário se você nem sabe o que eles estão respirando em casa”.
“Não há o que fazer para conter [as partículas], porque são pequenas o suficiente para passar por portas e janelas. Apenas políticas públicas resolveriam, envolvendo questões de planejamento a longo prazo”.
Fonte: paineira.usp.br

Estudo sobre poluição luminosa gera projeto de lei

20:24

Apesar de ainda pouco discutida, a poluição luminosa já é uma preocupação no mundo inteiro. Seus efeitos já são fortemente sentidos em campos como a astronomia, e a saúde humana, mas negligenciados na área econômica. O trabalho do pesquisador José Laercio Araújo, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, analisa a fundo a temática, e apresenta um projeto de lei que, juntamente com um processo de conscientização educacional, pretende reverter o quadro atual.

“É difícil tirar esse conceito [de poluição luminosa], porque todo mundo gosta de luz. Só que fora da atmosfera tem uma coisa muito mais bonita e importante que a gente não enxerga mais”, afirma o professor Enos Picazzio, orientador do trabalho.
Diversa e desconhecida
Laercio conta que poluição luminosa é o excesso de luz artificial.  O pesquisador identificou cinco tipos distintos de poluição luminosa. A primeira é a chamada skyglow, ou luz difusa, que representa a iluminação geral das cidades que cobre a atmosfera. Depois, a luz ofuscante, que afeta fortemente a segurança na medida em que prejudica a visão por ser direcionada aos olhos.
A terceira é a luz intrusa, que entra pelas janelas advindas de fontes de casas ou prédios vizinhos. A luz desordenada é o quarto tipo, representando o cenário onde vários tipos diferentes de fontes luminosas se somam de forma caótica. A última é a luz esbanjada, majoritariamente representada pelos holofotes. “Lá fora, inclusive, essa luz é sobretaxada. Quem usar, paga mais”, ressalta o pesquisador.
Picazzio explica que uma cidade muito iluminada afeta também cidades vizinhas. “Se você tentar enxergar Campinas daqui [de São Paulo], você não consegue. Mas se você for até o sul de Minas Gerais, no observatório de Brazópolis, em uma noite boa, sem nuvens, você consegue enxergar aviões se aproximando de Guarulhos”, afirma.
Implicações
Os efeitos da poluição luminosa na sociedade são diversos, como demonstra o pesquisador. Na educação e produção de conhecimento, o excesso de iluminação artificial prejudica a área da astronomia, dificultando os estudos e análises feitos do Universo observacionalmente. “Os astrônomos trabalham, basicamente, com captação de luz, de estrelas ou de reflexos de satélites, por exemplo. E essa luz não tem chegado aqui como deveria”, afirma Laercio.
Quanto à segurança, o pesquisador evidencia um equívoco do senso comum: a ideia de que quanto mais iluminado, mais seguro é o ambiente. Se a luz que serve a este local é mais forte que o necessário, a tendência é de ofuscar a visão e, consequentemente, diminuir a percepção de qualquer objeto que ali esteja.
Como exemplo deste cenário, Laercio cita as mudanças no sistema de iluminação da Cidade Universitária. “Na USP, mudaram o objeto que ampara a fonte de luz, e a fonte em si.” Ele continua, afirmando que a altura dos postes também sofreu alterações, ao que o orientador professor Enos completa: “a USP ficou melhor iluminada, gastando menos e sem jogar luz para cima”.
Na saúde e no meio ambiente, esse tipo de poluição afeta todos os seres. A fauna percebe seus efeitos a partir do momento em que a luz artificial interfere nas dinâmicas das espécies. Os vagalumes, por exemplo, que se utilizam de sua própria bioluminescência, têm sua comunicação impedida. As tartarugas são outro exemplo, que se guiam pela luz da Lua para encontrar seu caminho para o mar quando nascem, e são confundidas pelas luzes do continente, resultando na morte de muitas.
Os processos de fotossíntese também são afetados, sendo mantidos mesmo durante a noite, incentivados pela luz artificial. Já as consequências para os seres humanos já são, de certo modo, conhecidas. A questão da produção de melatonina, o “hormônio do sono”, que não tem sido formada adequadamente em grande parte da população por causa e fortes exposições noturnas à luz, tem sido amplamente discutida nos últimos anos. No entanto, segundo o pesquisador, todo o ciclo circadiano – metabolismo do corpo humano durante um dia – tem sido prejudicado. O tema, inclusive, foi ganhador do prêmio Nobel de Medicina neste ano.
Segundo o pesquisador, há evidências também de maior incidência de câncer de mama em decorrência de fortes exposições à luz, também durante o período da noite.
Por fim, na economia os impactos são igualmente contundentes. “A gente olhou outros países, como Chile, Espanha e Itália, e, em média, vimos uma redução de 20% na economia [após as mudanças na iluminação]”, afirma Laercio. No Brasil, os cálculos foram feitos acerca do total de consumo de energia elétrica, e, depois, a iluminação pública, foco da pesquisa, foi particularizada.
Segundo os dados, coletados em agências como a EPE e a Aneel, em média, o Brasil consumiu 38 bilhões de kilowatts/hora em 2016. A iluminação pública representa 16,4% desse valor. Aplicando a redução de 20% observada em outros países, a economia gerada seria de R$ 7,4 bilhões.
Rumo a Brasília
A finalidade do trabalho é mudar o cenário atual da iluminação pública brasileira e conscientizar a população dos riscos do atual sistema. A ideia é atingir estes objetivos através de duas vertentes: a legal, pela imposição de uma lei e de um conjunto de medidas administrativas que garantam a efetividade das mudanças; e a educacional, que busca sedimentar os conhecimentos sobre o tema nas futuras gerações.
Uma reunião foi marcada, em Brasília, para apresentação do projeto. Em dois capítulos e oito artigos, o projeto de lei procura, nas palavras do pesquisador, “controlar os índices de poluição luminosa em todo o território nacional, por meio da regulamentação das atividades de fabricantes de produtos de iluminação e de empresas de engenharia e autônomos, que elaboram projetos de iluminação pública.”
“Precisamos também mudar a cabeça dos novos cientistas. Não adianta você ir lá fora, fazer seu PhD, publicar não sei quantos artigos e não fazer nada pela sociedade”, dispara Picazzio. Ambos reforçam a importância do mestrado profissional em astronomia do IAG, no qual a pesquisa está inserida. Eles afirmam que este, e muitos outros trabalhos da mesma linha, não seriam viáveis sem a iniciativa.
Participarão deste encontro, em Brasília, as Comissões de Educação da Câmara, do MEC, do Meio Ambiente, e também os responsáveis da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e da Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia). Há um deputado interessado no projeto, mas sua identidade não foi revelada pelo pesquisador. A reunião estava prevista para novembro deste ano, mas foi adiada por tempo indeterminado, devido à urgência de outros projetos.
Fonte: agência Universitária de Notícias

Colaboração internacional entre USP e UNSW Sidney, Austrália

20:23


Da esquerda para direita: Elisabete Braga, Andréa Taschetto, Olga Sato e Paulo Polito
Crédito fotográfico: Luciano Souza
Em dezembro de 2017, o Laboratório de Oceanografia por Satélites (LOS) do Instituto Oceanográfico da USP, recebeu a visita da Dra. Andréa S. Taschetto, pesquisadora da Climate Change Reseach Center e investigadora associada da University de New South Wales (UNSW), Sidney, Austrália.  Esta visita faz parte da colaboração entre a USP e a UNSW onde, agências de fomento de cada país financiam seus pesquisadores para realização de reuniões científicas, participação em congressos, entre outros.  Os pesquisadores brasileiros são financiados pela FAPESP, dentro do escopo do programa SPRINT (http://www.fapesp.br/8602), que tem por missão promover a colaboração científica entre pesquisadores do Estado de São Paulo e os de outros países.  Além dos projetos de pesquisa, essas oportunidades incentivam novas iniciativas como por exemplo, intercâmbio de pesquisadores e alunos de pós-graduação. 
O foco da pesquisa do LOS do IOUSP, desenvolvida juntamente com a Dra. Andréa e a Dra. Angela Mararaj, que visitou antes, em julho de 2017 o Laboratório, é a compreensão dos mecanismos que causam a variabilidade da circulação do lado oeste do Oceano Atlântico. Essa região tem um impacto significativo no clima regional e em escala da bacia oceânica. Esse projeto é coordenado pelo Dr. Tércio Ambrizzi do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG). 
Como parte desse projeto, em Fevereiro de 2018, os Drs. Olga Sato e Paulo Polito, responsáveis pelo LOS, visitarão a UNSW para participar do encontro AMOS-ISCHMO 2018 (https://www.amos-icshmo2018.com.au). Além da apresentação de trabalhos, eles irão coordenar uma seção intitulada 'South Atlantic Ocean: circulation, processes, observations and modelling'. Frutos dessa colaboração já foram colhidos pois alunos associados ao LOS: Thamirys Cavaton, Henrique Batistuzzo, Mariana Lage (graduação) e Piero Bernardo (pós-graduação) tiveram trabalhos aceitos para apresentação nesse evento.
Fonte: IOUSP Notícias

Museu da USP terá simulação de escavação arqueológica nas férias

17:19

Atividade voltada a crianças, jovens e famílias é realizada pelo Museu de Arqueologia e Etnologia, em São Paulo


Todo ano, durante os meses de janeiro e julho, o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP oferece ações voltadas ao público infanto juvenil para trabalhar de maneira lúdica e descontraída as áreas da arqueologia, etnologia e museologia.
Em 2018, as férias de janeiro oferecerão aos visitantes a famosa escavação arqueológica simulada. São dois dias de atividades para cada faixa etária, realizadas das 14 às 17 horas:
  • 10 e 11 de janeiro (quarta e quinta-feira): crianças de 6 a 11 anos
  • 17 e 18 de janeiro (quarta e quinta): adolescentes de 12 a 15 anos
  • 23 e 14 de janeiro (terça e quarta): famílias com crianças a partir de 6 anos
  • 30 e 31 de janeiro (terça e quarta): adolescentes de 12 a 15 anos
A organização sugere aos participantes levar um lanche para compartilhar. As inscrições são gratuitas e há limite de vagas; os interessados devem se inscrever pelo telefone (11) 3091-4905 ou e-mail educativo.mae@usp.br. O museu fica na Av. Professor Almeida Prado, 1.466, no campus Cidade Universitária, em São Paulo.
Mais informações: (11) 3091 4905 ou e-mail educativo.mae@usp.br
Fonte: http://jornal.usp.br

Camada de gelo da Antártida influencia clima no Brasil

16:01

Para entender a fundo o clima brasileiro e o que o influencia, é necessária uma análise de fatores muito externos à nossa região geográfica. Mudanças no continente da Antártica, por exemplo, afetam fortemente a temperatura e o regime de precipitações no país. É o que descobriu a pesquisadora Camila Carpenedo, do IAG-USP, em sua tese de doutorado. Segundo suas pesquisas, eventos extremos de retração ou expansão do gelo marinho antártico estão ligados à ocorrência de bloqueios atmosféricos em toda a América do Sul.
Os estudos partiram da premissa de que os bloqueios no Hemisfério Sul se formam devido a variações longitudinais da temperatura da superfície do mar (TSM), e de que são mais frequentes no inverno e na primavera, períodos nos quais a extensão de gelo marinho é maior, atingindo latitudes entre 65º e 55º S. “Como a borda do gelo marinho está, [nestes períodos], localizada em uma região muito sensível da circulação geral da atmosfera, existe um grande potencial de variações na cobertura de gelo marinho afetar a circulação atmosférica, bem como os sistemas atmosféricos.”, conta a pesquisadora.
Segundo explica Camila, bloqueios atmosféricos são sistemas quentes de alta pressão, e, no Hemisfério Sul, ocorrem principalmente entre latitudes de 50º S e 60º S. Tais bloqueios afetam o deslocamento normal de sistemas como ciclones extratropicais e frentes frias, que impactam as condições do tempo no Brasil.
Os efeitos dos bloqueios são um aumento de temperatura e diminuição da precipitação sob sua região central, e condições opostas em suas bordas. “Dependendo da duração de um bloqueio, ele pode resultar em eventos extremos de seca e chuva, ou quentes e frios, o que impacta diretamente a produção agrícola do país”, afirma a pesquisadora.
Sobre os motivos que a levaram a investigar este cenário, Camila afirma que sempre esteve próxima do tema, fazendo estudos sobre a Antártica desde sua graduação. Além disso, ela reitera a importância do continente para o clima da América do Sul, através da formação de massas de ar frias e de desvio da trajetória de ciclones extratropicais. “Por exemplo, Boa Vista (RR) está a 3.776 km de distância de Porto Alegre (RS), enquanto a Estação Brasileira Comandante Ferraz na Antártica está a 3.600 km da capital gaúcha.”, diz a pesquisadora, demonstrando tal importância.
Alguns dos dados utilizados foram de extensão de gelo da NASA, índices climáticos, e saídas dos modelos de circulação geral oceano-atmosfera, além de algoritmos para identificar os eventos de bloqueio.
A pesquisa demonstrou que há três padrões distintos de forçantes térmicas que se associam aos eventos extremos do gelo antártico: o Padrão Forçante Tropical 1 e 2 (PFT), e o Padrão Forçante Extratropical (PFE). O PFT1 ocorre em situações de retração do gelo no mar de Weddell e causa uma série de fenômenos, que desfavorecem a formação de bloqueios atmosféricos. “Sobre o centro-sul da América do Sul, existe um centro anômalo de alta pressão, o que poderia indicar a atuação de massas de ar frias, contribuindo para as anomalias frias de temperatura do ar próximo à superfície até as latitudes intertropicais” afirma a pesquisadora.
Já o PFT2 se mostra como oposto ao anterior, ocorrendo em situações de expansão de gelo no mar de Weddell e contribuindo, desta forma, para a formação de bloqueios. O PFE ocorre em casos de expansão de gelo no Oceano Índico e no Oceano Pacífico Oeste, que também desfavorecem a formação de bloqueios, e implicam em um aumento da densidade de ciclones próximos a costa da Antártica.
Sobre a conclusão dos estudos, a pesquisadora afirma: “os resultados sugerem que eventos extremos de gelo marinho antártico podem criar condições favoráveis ou desfavoráveis à ocorrência de bloqueios atmosféricos, evidenciando a interação entre fenômenos de baixa e alta frequência, o que sugere a natureza altamente não linear associada aos bloqueios atmosféricos.”
A intenção de Camila é de que os resultados apresentados possam ser precursores para a previsão de bloqueios no Hemisfério Sul, assim como aprimorar o conhecimentos a respeito destes, buscando representações mais adequadas dos fenômenos.
Fonte: Agencia Universitária de Notícias

Saber caiçara auxilia na gestão costeira em São Sebastião

14:46

Habitantes originais do litoral sudeste do Brasil, os caiçaras têm saberes e técnicas próprias para se relacionar com o ambiente costeiro — reconhecem espécies de animais marinhos e se orientam pela lua e pelas marés para pescar, por exemplo.
Esses conhecimentos tradicionais, documentados amplamente por antropólogos e negligenciados durante muito tempo por oceanógrafos, motivaram a dissertação de mestrado de Caiuá Mani Peres, defendida este ano pelo IO (Instituto Oceanográfico) da USP, com colaboração de Fernanda T. Stori e supervisão de Alexander Turra.
Para o trabalho, Caiuá entrevistou 18 pescadores caiçaras residentes na baía do Araçá, próxima a São Sebastião, no litoral norte paulista. Focada na percepção deles sobre o impacto humano na região, a pesquisa se insere no campo da oceanografia humana, uma área recente que estuda a relação das pessoas com o ambiente marinho.
“É uma comunidade muito pequena. Eles não são muito coesos, mas estão lá e têm um conhecimento muito aprofundado da área”, contou Caiuá à AUN. “Não adianta só estudar o ecossistema do ponto de vista biológico, físico. Tem que ter o lado humano. Não fosse o lado humano, ninguém estaria estudando aquilo.”
O pesquisador defende que esses saberes sejam encarados como complementares ao conhecimento científico da academia — com os quais, muitas vezes, têm “similaridades impressionantes”. “E, quando têm divergências, é interessante investigar. Pode haver um erro de metodologia científica ou de interpretação”, avaliou.
No Araçá, os caiçaras estão em cerca de dois mil. Conseguiram manter muitos de seus hábitos em meio ao rápido processo de urbanização de São Sebastião, que hoje conta com 83 mil habitantes (e cuja população mais que dobra na temporada turística).
Mesmo assim, há um receio que esses hábitos desapareçam com o tempo; muitos dos filhos dos pescadores optaram por mudar de atividade ou de local. “Não acho que a cultura caiçara vá acabar”, opinou. “Ela está obviamente ameaçada, mas eles conseguem de alguma forma se manter.”
Conflitos
O pano de fundo do trabalho foi o conflito decorrente de um projeto de expansão do porto de São Sebastião, que previa aterrar toda a baía do Araçá para construir uma área de armazenamento de contêineres.
O projeto foi barrado por meio de uma ação civil capitaneada pelo Ministério Público estadual, cujos desdobramentos foram concluídos no início deste ano. Por meio dela, a expansão foi suspensa, e a licença prévia, impugnada. Caso a gestão do porto decida por tentar novamente o licenciamento do projeto, terá de recomeçar a tramitação burocrática do zero.
A tese de Caiuá propõe um modelo de gestão costeira integrada, com o qual ele teve uma experiência muito prática: entre 2014 e 2016, integrou a organização responsável pelos encontros abertos para discutir o projeto portuário e o uso da baía. “O que eu vejo como mais difícil [na gestão costeira] é colocar todo mundo para conversar, e a partir daí tentar chegar num consenso”, disse.
À época, membros da academia também se posicionaram para barrar a proposta, e conseguiram financiamento da Fapesp (Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para incentivar a produção de pesquisa na região, no projeto que ficou conhecido como Biota Araçá — ativo até hoje.
Os próprios caiçaras participaram dos fóruns de discussão e decisão. Alguns se tornaram “guardiões” locais, incumbidos com a função de fiscalizar as políticas públicas deliberadas.
As articulações decorrentes dos encontros ainda resultaram na formulação de um plano de desenvolvimento sustentável para a região, produzido em conjunto com outros pesquisadores do IO. Até pouco, o plano concentrava as principais diretrizes utilizadas pela APA (Área de Proteção Ambiental) marinha do litoral norte, mas sua implementação foi cancelada há um ano pelo governo estadual sob a alegação de corte de gastos.
Laboratório vivo
Caiuá define o Araçá como um laboratório vivo. “[A baía] faz um papel único. Nenhum outro lugar tem o mesmo papel ali naquela região”, disse. “Ali tem ecossistema de praia, de manguezal, costão rochoso, uma planície entre marés muito extensa com uma biodiversidade bentônica absurda. A própria comunidade de pescadores enxerga essa vocação da área.”
Em seu mestrado, o oceanógrafo adaptou termos do universo corporativo, como a matriz SWOT (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças, da sigla em inglês) para identificar problemas e possíveis soluções para o local.
No momento, ele está trabalhando em dois artigos derivados da dissertação. Caiuá pretende manter sua linha de pesquisa e começar seu doutorado no ano que vem — desta vez estudando não os caiçaras, mas as comunidades aborígenes da Austrália, para onde se mudou este ano.

Nova diretora destaca qualidade e excelência do Instituto Oceanográfico

18:14


Uma apresentação musical de alunos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) deu o tom ao início da cerimônia de posse da nova diretora e do novo vice-diretor do Instituto Oceanográfico (IO), Elisabete de Santis Braga da Graça Saraiva e Paulo Yukio Gomes Sumida.
A solenidade, que contou com a presença de dirigentes da Universidade, ex-diretores, alunos, professores e funcionários do IO, foi realizada no dia 30 de novembro, no Auditório Professor Dr. Plínio Soares de Almeida, localizado na sede do Instituto.
Em seu discurso, a nova diretora falou sobre sua trajetória acadêmica e profissional na Universidade, desde que ingressou no curso de Ciências Biológicas, no Instituto de Biociências (IB), em 1979. Elisabete contou que seu primeiro contrato de trabalho na USP foi para o cargo de técnico de laboratório, em 1984, tornando-se professora em 1989.
A dirigente também destacou a “parceria com o professor Paulo Sumida para conduzir o IO com orgulho, responsabilidade e dedicação. O Instituto é uma Unidade pequena em tamanho, mas grandioso pela qualidade de seus professores, funcionários e alunos”.
Em seguida à apresentação da diretora, houve o descerramento do quadro do professor Frederico Pereira Brandini, diretor do IO no período de 2013 a 2017, que passará a integrar a Galeria de Diretores da Unidade.
O reitor Marco Antonio Zago ressaltou que “os dirigentes são os legítimos representantes da comunidade universitária, pois foram eleitos por um processo democrático estabelecido em nosso Estatuto e em nosso Regimento. Por isso, este momento é uma oportunidade para a reconciliação de todos diante daqueles que a maioria escolheu. Na USP, não deve haver situação ou oposição, mas sim um alinhamento de ideias em benefício da Universidade”, afirmou.
Quem são
A nova diretora, Elisabete de Santis Braga da Graça Saraiva, é professora titular do Departamento de Oceanografia Física, Química e Geológica do IO. Possui bacharelado e licenciatura em Ciências Biológicas, mestrado em Oceanografia, todos pela USP, e doutorado-sanduíche em Oceanografia pela USP e pela Université de Bretagne Occidentale. Fez pós-doutorado no Institut de Recherche pour le Développement, na Université Pierre et Marie Curie e no Institut Universitaire Européen de la Mer.
É pesquisadora do IO desde 1985 e especialista em ciclos biogeoquímicos nos oceanos e bioquímica marinha. Foi diretora do Museu de Ciências da USP por três mandatos consecutivos, no período de 2004 a 2010. Tem experiência na área de Oceanografia Química, atuando, principalmente, nos seguintes temas: nutrientes, ciclo do carbono, oceanografia química, poluição e metais pesados. Possui cerca de 50 mil milhas náuticas navegadas em expedições científicas.
Paulo Yukio Gomes Sumida, o novo vice-diretor, obteve o doutorado na Universidade de Southampton e fez o pós-doutorado na Universidade do Havaí. Ingressou na USP como professor assistente em 2000. Já trabalhou com vários tópicos relacionados à ecologia dos organismos bentônicos das águas profundas em diferentes bacias oceânicas, como o Atlântico Norte e do Sul e o Golfo do México. Participou de mais de 40 cruzeiros oceanográficos. Atualmente, realiza pesquisa nas áreas de fauna de ambientes de redução, recifes de corais de águas profundas e nódulos e crostas polimetálicos.
Fonte: Jornal da USP