Termina, na China, operação inédita coordenada pela Praticagem do Estado de São Paulo em São Sebastião

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Depois de 54 dias de viagem, o Xin Guang Hua, o maior navio submersível doca do mundo, chegou ao Porto de Zhoushan na quarta (15) levando em sua plataforma o Chipol Taihu, que  foi descarregado nesta sexta (17).

Crédito: Bruno César Alves (AWS)

 Difícil imaginar o que aquele navio esquisito, parecido com um carro guincho, estava fazendo ali no canal do porto de São Sebastião. O suspense aumentou ainda mais quando outro navio se aproximou, puxado por três rebocadores. Nem os mais criativos conseguiam prever que o primeiro navio ia submergir, como um submarino, para que o segundo fosse manobrado com exatidão justamente no convés-plataforma. Então, o navio voltou à superfície, carregando sua carga preciosa até a China.


Parece filme, mas tudo isso aconteceu de verdade, em novembro de 2019, para espanto dos privilegiados que conseguiram acompanhar essa manobra inédita no canal entre São Sebastião e Ilhabela, no Litoral Norte.  O maior navio submersível doca do mundo, o Xin Guang Hua, de Hong Kong, com 255 metros de comprimento (convés do tamanho de dois campos de futebol) submergiu parcialmente até a profundidade de 27 metros, para receber em seu convés-plataforma o navio Chipol Taihu, de 188 metros de comprimento, carregado com toras de madeira. Essa manobra inédita envolveu, além da Praticagem da Praticagem do Estado de São Paulo, especialistas da Marinha e as empresas Cosco Shipping e AWS Service.


O navio Chipol Taihu ia para a China quando os problemas começaram. Com os sistemas de propulsão e de geração de energia avariados, a embarcação ficou à deriva e ficou à deriva, tendo sido rebocado do porto do Rio Grande. O Xin Guang Hua estava a caminho de Cuba e foi desviado para o Brasil para realizar a manobra e seguir viagem para a China no dia 25 de novembro. Depois de 54 dias de viagem, a chegada foi nesta quarta (15), no Porto de  Zhoushan, sendo que o navio foi descarregado nesta sexta (17).


As duas embarcações são da mesma operadora, a Cosco China, que resolveu montar esse esquema delicado para garantir que o navio e sua valiosa carga, de cerca de 40 mil toneladas de toras de madeira para a indústria de celulose, fossem levados com segurança para a China.


Foram várias reuniões preparatórias para escolher exatamente o local ideal para a manobra, como explica o prático Carlos Alberto de Souza Filho, Presidente da Praticagem do Estado de São Paulo: “Nossa equipe achou um lugar com 33 metros de profundidade, protegido das ondas do mar aberto e onde a operação não atrapalharia as operações do Porto e nem provocaria danos ambientais. Foi um trabalho em equipe realizado com muitos cálculos e todos os cuidados com a segurança, pois qualquer toque entre dois navios causa um estrago grande”.


A manobra foi realizada pela Praticagem do Estado de São Paulo, com a assessoria de dois práticos: Hermes Bastos e Flavio Peixoto. O prático Hermes, que atuou na manobra, explica a operação: “A Praticagem de São Sebastião foi consultada sobre a possibilidade de acompanhar essa manobra de imersão do navio doca e de docagem do navio avariado. Além de nós, a companhia chinesa também fez contatos com a praticagem do Rio de Janeiro, para realizar a operação na Ilha Grande, e praticagem da Bahia, para realizar na baia de Todos os Santos, em Salvador”.


A partir da escolha, a Praticagem de São Paulo tinha uma data limite, até o início de dezembro, devido à chegada dos navios de cruzeiros que ocupariam a área escolhida para a operação. Ficou decidido que a operação seria realizada em torno de 15 a 20 de novembro. “Assim que o serviço foi contratado, fizemos o levantamento batimétrico, com nossa equipe de batimetria, utilizando sonda multifeixe, que forneceu dados bastante detalhados das profundidades locais. Encontramos uma área bem grande, de 34 metros de profundidade, ideal para o que necessitavam, e as condições meteorológicas (vento, corrente, ondulação e visibilidade) esperadas também seriam favoráveis para a execução do trabalho”, relata Hermes.


Ele conta que os superintendentes das operações de docagem da Cosco vieram especialmente da China, para acompanhar a operação no navio. Também veio o representante da empresa Zvitzer de rebocadores, que executou toda a faina de reboque, desde o Rio Grande até a fase final da manobra. Foram realizadas na sede da Praticagem do Estado de São Paulo três reuniões preparatórias com todas as equipes envolvidas para cobrir todos os detalhes da delicada operação.


O navio doca entrou na Barra Norte e foi fundeado pelos práticos, com precisão na posição determinada, no dia 19 pela manhã. Na quarta, às 4 da manhã, começou a operação para submergir parcialmente o Xin Guang Hua, que só terminou às 8 horas. Após submergir, foi até 27 metros (para dar uma ideia, o equivalente a um prédio de oito andares) para atingir a profundidade desejada e com água suficiente para receber a embarcação avariada. Depois, foi mantido alinhado contra a corrente e o vento, pelo prático Hermes, usando os rebocadores. Enquanto isso, às 6 da manhã, o prático Flávio embarcava no navio avariado, o Chipol Taihu, sem propulsão e sem energia, puxado por três rebocadores, para o ponto de encontro com o navio semissubmerso.”


Após 2 horas de reboque no canal de São Sebastiao, o prático Flávio entregou o navio ChipolTaihu na posição desejada. A partir desse ponto, o navio foi cuidadosamente puxado para dentro da plataforma-doca do navio Xing Guang, auxiliado por rebocadores e cabos especiais. “Foram três horas e meia só para deslocar o navio avariado por cerca de 200 metros, tudo muito lentamente para evitar um acidente. A outra etapa seria trazer o navio doca novamente para a profundidade normal, de navegação, após receber a carga. Para isso, eles bombeiam para fora a água dos tanques de lastro, até chegar ao nível de flutuabilidade necessária, com cerca de 11 metros de calado. Depois disso, nos dias subsequentes, serão feitas as soldas das estruturas no convés de carga, formando um picadeiro para apoiar o navio avariado com segurança, para garantir estabilidade e sustentar a embarcação até a viagem à China”, complementou Hermes.


CoscoShipping


Alonso Yang, Gerente Geral da Divisão de Desenvolvimento Estratégico da CoscoShipping, explica que a empresa já realizou manobras como essas em outras regiões, mas que no Brasil foi a primeira vez, “embora

tivéssemos o mesmo navio no Brasil em novembro de 2018, mas carregando uma plataforma”.

Para ele, a operação é muito delicada porque pode envolver colisão, acidente de aterrissagem de embarcações com tripulantes e outros trabalhadores ou mesmo com as duas embarcações afundando. “O maior desafio foi conseguir fazer todo o cálculo e superação das condições do mar / vento levando uma embarcação totalmente carregada. O trabalho da Praticagem foi muito profissional e não burocrático, facilitando a manobra”.


AWS Service


Ed Nascimernto é Diretor Brasil da AWS Service, outra empresa que participou da operação,credenciada pela Diretoria de Portos e Costas da Marinha do Brasil, para projetar, avaliar, conduzir e executar operações marítimas especiais e de alto grau de complexidade, como essa realizada em novembro.

Ele conta que a empresa já executou no Brasil cerca de 20 operações similares. “Apos diversos estudos técnicos de diversas áreas ao longo da costa Brasileira, a AWS junto com a Coscoe Praticagem chegou à definição de que a região atenderia a todos as condições climáticas, hidrográficas e metaoceânicas necessárias. Foi uma operação inédita em São Sebastião, realizada com total sucesso.

“Tal fato relevante, levou ao setor de engenharia da AWS a iniciar em 2020 o projeto de viabilidade de fundeio de plataformas e navios sondas na mesma região, na qual, pretende executar mais 4 projetos neste mesmo ano’, revelou.

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