quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Camada de gelo da Antártida influencia clima no Brasil

Para entender a fundo o clima brasileiro e o que o influencia, é necessária uma análise de fatores muito externos à nossa região geográfica. Mudanças no continente da Antártica, por exemplo, afetam fortemente a temperatura e o regime de precipitações no país. É o que descobriu a pesquisadora Camila Carpenedo, do IAG-USP, em sua tese de doutorado. Segundo suas pesquisas, eventos extremos de retração ou expansão do gelo marinho antártico estão ligados à ocorrência de bloqueios atmosféricos em toda a América do Sul.
Os estudos partiram da premissa de que os bloqueios no Hemisfério Sul se formam devido a variações longitudinais da temperatura da superfície do mar (TSM), e de que são mais frequentes no inverno e na primavera, períodos nos quais a extensão de gelo marinho é maior, atingindo latitudes entre 65º e 55º S. “Como a borda do gelo marinho está, [nestes períodos], localizada em uma região muito sensível da circulação geral da atmosfera, existe um grande potencial de variações na cobertura de gelo marinho afetar a circulação atmosférica, bem como os sistemas atmosféricos.”, conta a pesquisadora.
Segundo explica Camila, bloqueios atmosféricos são sistemas quentes de alta pressão, e, no Hemisfério Sul, ocorrem principalmente entre latitudes de 50º S e 60º S. Tais bloqueios afetam o deslocamento normal de sistemas como ciclones extratropicais e frentes frias, que impactam as condições do tempo no Brasil.
Os efeitos dos bloqueios são um aumento de temperatura e diminuição da precipitação sob sua região central, e condições opostas em suas bordas. “Dependendo da duração de um bloqueio, ele pode resultar em eventos extremos de seca e chuva, ou quentes e frios, o que impacta diretamente a produção agrícola do país”, afirma a pesquisadora.
Sobre os motivos que a levaram a investigar este cenário, Camila afirma que sempre esteve próxima do tema, fazendo estudos sobre a Antártica desde sua graduação. Além disso, ela reitera a importância do continente para o clima da América do Sul, através da formação de massas de ar frias e de desvio da trajetória de ciclones extratropicais. “Por exemplo, Boa Vista (RR) está a 3.776 km de distância de Porto Alegre (RS), enquanto a Estação Brasileira Comandante Ferraz na Antártica está a 3.600 km da capital gaúcha.”, diz a pesquisadora, demonstrando tal importância.
Alguns dos dados utilizados foram de extensão de gelo da NASA, índices climáticos, e saídas dos modelos de circulação geral oceano-atmosfera, além de algoritmos para identificar os eventos de bloqueio.
A pesquisa demonstrou que há três padrões distintos de forçantes térmicas que se associam aos eventos extremos do gelo antártico: o Padrão Forçante Tropical 1 e 2 (PFT), e o Padrão Forçante Extratropical (PFE). O PFT1 ocorre em situações de retração do gelo no mar de Weddell e causa uma série de fenômenos, que desfavorecem a formação de bloqueios atmosféricos. “Sobre o centro-sul da América do Sul, existe um centro anômalo de alta pressão, o que poderia indicar a atuação de massas de ar frias, contribuindo para as anomalias frias de temperatura do ar próximo à superfície até as latitudes intertropicais” afirma a pesquisadora.
Já o PFT2 se mostra como oposto ao anterior, ocorrendo em situações de expansão de gelo no mar de Weddell e contribuindo, desta forma, para a formação de bloqueios. O PFE ocorre em casos de expansão de gelo no Oceano Índico e no Oceano Pacífico Oeste, que também desfavorecem a formação de bloqueios, e implicam em um aumento da densidade de ciclones próximos a costa da Antártica.
Sobre a conclusão dos estudos, a pesquisadora afirma: “os resultados sugerem que eventos extremos de gelo marinho antártico podem criar condições favoráveis ou desfavoráveis à ocorrência de bloqueios atmosféricos, evidenciando a interação entre fenômenos de baixa e alta frequência, o que sugere a natureza altamente não linear associada aos bloqueios atmosféricos.”
A intenção de Camila é de que os resultados apresentados possam ser precursores para a previsão de bloqueios no Hemisfério Sul, assim como aprimorar o conhecimentos a respeito destes, buscando representações mais adequadas dos fenômenos.
Fonte: Agencia Universitária de Notícias

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